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A
fundação da nova Abadia em Itatinga foi obra de um acaso providencial.
Encontrando-se D. Atanásio Merkle, abade do mosteiro cisterciense de
Itaporanga, com o novo bispo de Botucatu, D. Henrique Golland Trindade, por
ocasião de uma viagem, narrou-lhe o desejo de D. Afonso de encontrar
um novo lar para sua comunidade dispersa. Imediatamente, D. Henrique interessou-se
pelo projeto e prontificou-se a ajudar, prestando todo auxílio possível
e oferecendo a paróquia de Itatinga como ponto de apoio para a fundação
cisterciense em sua diocese. Aceitando a generosa oferta, D. Afonso, então
radicado em Mairinque, Estado de São Paulo, adquiriu uma pequena propriedade
rural próxima à cidade de Itatinga, com recursos fornecidos
pelo Sr. Antonio Assumpção, o grande benfeitor do início
da fundação, que foi aumentada com uma significativa doação
de terras do Sr. Pedro di Piero e de mais dez alqueires ofertados pela prefeitura.
Graças a esses e muitos outros donativos, foi possível criar
as condições materiais para a fundação, apoiada
generosa e maciçamente pela população católica
de Itatinga, tendo à frente o então prefeito André Franzollin
e o Sr. José di Piero, sem excluir os mais pobres, e, ainda, por numerosos
benfeitores, sobretudo da cidade de São Paulo. A todos esses amigos
dos primórdios, muitos com os nomes registrados em nossa crônica
e outros anônimos, a Abadia sente-se devedora de um tributo de gratidão,
deles sempre se recordando em suas orações e celebrações
litúrgicas.
A
fundação em Itatinga, ocorreu no dia 28 de maio de 1951, significativamente
a mesma data da fundação na Alemanha em 1140 e da restauração
em 1927. A solene procissão, que reuniu o convento, isto é,
apenas um grupo remanescente da antiga comunidade de Hardehausen, e os paroquianos,
saiu da praça da matriz, tendo à frente a cruz de madeira a
ser fincada no local da fundação, onde foi celebrada a santa
missa. Mais tarde, no dia 16 de agosto do mesmo ano, foi lançada a
pedra fundamental, com a presença do Sr. Governador, Lucas Nogueira
Garcez, que se considerava o padrinho da fundação. Em 1955 foi
possível inaugurar o prédio do Mosteiro, simples e de proporções
reduzidas, se comparado a outros mosteiros mais antigos, mas extremamente
harmonioso, sólido e de singela beleza, com todos as condições
para a vida regular. Durante os anos da construção a comunidade
habitou a casa da chácara adquirida da família Linheira, atualmente
hospedaria e denominada Casa São Liborio.
Mais
de século depois, todavia, a Abadia de Hardehausen renasceu por iniciativa
da Abadia de Mariensttat, que para lá enviou uma colônia de monges
no dia 28 de maio de 1927, chefiados pelo prior Afonso Heun. Este, com a rápida
consolidação da casa, tornou-se seu qüinquagésimo
sétimo abade em 1933. A comunidade assumiu, então, o trabalho
de formação e educação de jovens, em particular
daqueles com dificuldades de aprendizagem nas escolas comuns e desenvolveu
este serviço até que esta atividade, em razão das normas
e regulamentos sufocantes e do estrito controle do regime nazista, não
mais foi possível. Com dificuldades financeiras, sem meios para manter
a comunidade e sofrendo pressão do governo, os monges foram obrigados
a vender seu convento e deixar sua querida Abadia no dia 1 de outubro de 1938.
O bispo de Paderborn providenciou um refúgio para a comunidade na paróquia
de Santa Agnes em Magdeburg, onde alguns de seus sacerdotes puderam exercer
o ministério pastoral. Neste ínterim, D. Afonso Heun começou
a procurar um lugar para reiniciar a vida regular da comunidade e buscou o
estrangeiro, já que as condições então vigentes
na Alemanha tornavam isso impossível. Veio, assim, para o Brasil em
1939, acompanhado de dois irmãos conversos e radicou-se, primeiro,
em S. José do Rio Pardo, onde chegou a fazer uma fundação
canônica, que, todavia, não foi adiante em razão de dificuldades
que ali encontrou. Mais tarde, os monges italianos da Congregação
de São Bernardo assumiram essa fundação, que deu origem
à atual abadia cisterciense de N. Sra. de São Bernardo. Radicou-se,
então, D. Afonso em Mairinque, no Estado de São Paulo, até
que conseguiu realizar a desejada fundação em Itatinga, no mesmo
estado, dando origem à Abadia de Nossa Senhora da Assunção
de Hardehausen-Itatinga, o que permitiu o renascimento e a continuação
da antiqüíssima Abadia de Hardehausen no Brasil, através
da transferência canônica de todos os seus direitos e privilégios
à nova casa fundada.
A
história da Abadia de Hardehausen começa no dia 28 de maio de
1140, quando uma colônia de monges, chefiada por seu abade Daniel, funda
um novo mosteiro em terras doadas pelo bispo Bernardo de Paderborn. Este bispo
piedoso deseja ter, em sua diocese, uma abadia cisterciense e, por isso, pediu
à Abadia de Kamp, a primeira da Ordem fundada na Alemanha e pertencente
à filiação de Morimond, a quarta filha de Cister, que
enviasse monges para a fundação. O lugar escolhido chamava-se
Herswitehusen, nome que depois evolui para Hardehausen e significava, segundo
a explicação dos estudiosos, colônia da floresta vermelha
ou da floresta do cavalo. Posteriormente o bispo Bernardo dotou a Abadia de
outros bens para assegurar sua manutenção. Em 1165, a igreja
abacial foi consagrada e dedicada a Sancta Maria Virgo Gloriosa. Era uma majestosa
e ampla basílica românica de 58 metros de cumprimento por doze
de largura. A Abadia de Hardehausen experimentou, desde então, um rápido
crescimento tanto no seu efetivo humano quanto na extensão de seu patrimônio
fundiário. Fundou logo três outras abadias, Marienfeld, na diocese
de Münster, em 1185, Bredelar, na fronteira entre as dioceses de Colônia
e Paderborn, em 1196 e Scharnebeck, na diocese de Verden/Aller, em 1243. Mais
tarde, também, o priorado de Wahlhausen, na diocese de Mainz, esteve
subordinado a Hardehausen. Em meados do século XIV, por dificuldades
econômicas, o número de monges foi limitado a quarenta e o de
irmãos conversos a trezentos, o que deixa supor que a comunidade monástica
tenha tido um efetivo ainda maior nos períodos antecedentes. No plano
patrimonial, Hardehausen tornou-se uma casa poderosa, um mosteiro imperial
independente, sendo seus abades verdadeiros senhores feudais, com direito
de baixa justiça sobre diversas localidades que estavam sob seu domínio.
Ainda que este tipo de desenvolvimento não estivesse de acordo com
a primitiva legislação cisterciense, foi comum nos mosteiros
da Ordem após o século XII. Todavia, como casa rica e poderosa,
Hardehausen foi alvo, mais de uma vez, de pilhagens por parte de bandos armados
durante a Idade Média. A partir do século XIV, inicia-se a decadência
material e da disciplina, alternada com períodos de florescimento e
estabilidade. O período mais difícil de Hardehausen, na sua
primeira fase, talvez tenha sido o da Guerra dos Trinta Anos, que devastou
a Alemanha. O mosteiro ficou quase pereceu nessa época e os danos materiais
foram imensos, devendo a comunidade vagar por um tempo fora de seu convento.
No fim das hostilidades, a comunidade estava reduzida a seis monges e dois
noviços. Contudo, os trabalhos de reconstrução logo começaram
e tiveram seu coroamento sob o governo do abade Estêvão Overgaer,
homem de verdadeiro espírito religioso , que foi abade de 1675 a 1713,
quando faleceu com 86 anos. Em seu abaciado, o mosteiro foi inteiramente renovado
(e a igreja “barroquizada”) e a observância monástica
recolocada num plano superior. A abadia sobreviveu, ainda, algumas décadas,
até que foi supressa no dia 8 de fevereiro de 1803 pelo governo da
Prússia, em cujo território encontrava-se então. A comunidade
contava com cerca de vinte membros nesta oportunidade. Em seguida à
secularização, o prédio do convento foi vendido, seus
bens inventariados e expropriados.A grande basílica românica,
já barroquizada, foi demolida, existindo, ainda hoje, em outras igrejas
da região, altares e outras peças de talha que a decoravam.
Embora haja dúvidas a respeito, de acordo com as informações
disponíveis, na primeira fase de sua existência, Hardehausen
foi governada por cinqüenta e seis abades.