A Ordem Cisterciense

Desde
o início, foi decidido que todos os mosteiros da Ordem seriam construídos
em honra da Virgem Maria, o que traduzia sua terna devoção à
Santa Mãe de Deus que marcou a espiritualidade cisterciense. Nisso
mostraram-se filhos de seu tempo, o século XII. São Bernardo
destacou-se neste aspecto, tendo escrito belíssimos sermões
sobre Nossa Senhora que, se não são inovadores em termos de
Mariologia, têm o mérito de expor de forma correta e brilhante
o melhor da doutrina mariana da época.
Com o crescimento e a diversificação dos mosteiros, sem falar
na incorporação à Ordem de inteiras congregações
monásticas, nem sempre conseguiu-se manter o ideal original em toda
sua pureza e fidelidade. Além do mais, os inúmeros mosteiros
espalhados pela Europa deviam submeter-se a condições distintas
e variadas, o que exigia adaptações e abrandamentos na forma
de vida inicial. Embora a Ordem tivesse uma relativa centralização,
com a reunião anual de todos os abades na casa-mãe Cister, a
uniformidade tão desejada pela Carta de Caridade, documento que estruturou
a Ordem nascente, ficou de algum modo vulnerada. Esse documento, obra datada
do primeiro quarto do século XII, preconizava o vínculo da caridade
como peça fundamental para o relacionamento entre os mosteiros. Proibia
as relações econômicas de dependência (pagamento
de tributos ou rendas) e insistia no socorro mútuo e na solidariedade
entre as diversas abadias, sobretudo no plano espiritual. A harmonia desta
estrutura e seu elevado ideal deram grande vigor à reforma cisterciense.
Quando São Bernardo morreu em 1153, a Ordem contava com 338 abadias,
número que continuará em expansão até meados do
século seguinte. Nessa época, contudo, já haviam surgido
as ordens mendicantes (dominicanos e franciscanos) e o recrutamento vocacional
será menos intenso. A Ordem não deixou de sofrer as vicissitudes
dos tempos em que viveu. As imunidades de que gozavam os cistercienses levaram
a um certo relaxamento. A grande expansão dos mosteiros teve como conseqüência
um enfraquecimento do Capítulo Geral, pois nem todos os abades podiam
comparecer anualmente a sua reunião. Também a Peste Negra, a
Guerra dos Cem anos e as guerras de religião causaram muitos danos
e a perda de mosteiros. Enfim, fez muito mal à Ordem a prática
da comenda, costume de entregar abadias a pessoas de influência, estranhas
à comunidade monástica, para que desfrutassem de suas rendas.
Tais pessoas eram chamadas de abades comendatários que, via de regra,
não se preocupavam com a qualidade da vida espiritual dos monges. Nasceram,
ainda, com o tempo, as congregações, agrupando mosteiros por
países ou regiões. Embora conflitantes com com a proposta inicial
de união em torno do Capítulo Geral, as congregações
permitiram um certo revigoramento, não sem prejuízo da uniformidade
do início. Aliás, não faltaram movimentos de reforma
no seio da Ordem, o que deu origem à estrita observância. A convivência,
porém, entre as casas reformadas e a demais nem sempre foi pacífica,
até que a grande secularização do final do século
XVIII e início do XIX suprimiu grande parte dos mosteiros cistercienses.
O que restou da Ordem, incluindo as comunidades da estrita observância,
permitiu o seu reflorescimento. Em 1892 separam-se os dois ramos, tornando-se
a estrita observância uma ordem independente. Atualmente as duas ordens
possuem casas espalhadas pelos cinco continentes, sendo que nove delas estão
implantadas no Brasil.
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